Garantias locatícias: fiador, caução, seguro-fiança e alternativas
Conheça as garantias locatícias da Lei do Inquilinato: fiador, caução, seguro-fiança e título de capitalização. Compare custos, riscos e saiba como escolher.
Leitura de 11 min · Atualizado em 2026-07-10

- A Lei do Inquilinato (Lei 8.245/91) prevê as garantias da locação: caução, fiança, seguro-fiança e cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento.
- É proibido exigir mais de uma garantia no mesmo contrato — a chamada dupla garantia é vedada por lei.
- A caução em dinheiro tem teto de 3 aluguéis e deve ser devolvida com correção ao fim do contrato; o seguro-fiança não é devolvido.
- Fiador não tem custo direto, mas é difícil de conseguir; seguro-fiança e fiança digital são pagos, porém rápidos de aprovar.
- A melhor garantia depende do perfil: quem tem reserva tende a preferir caução; quem não tem fiador costuma optar por seguro-fiança ou fiança digital.
O que são garantias locatícias
Garantia locatícia é o mecanismo que protege o locador contra inadimplência e danos durante a locação: se o inquilino deixar de pagar aluguel, encargos ou causar prejuízos, o proprietário tem de onde cobrar. Para o inquilino, apresentar uma boa garantia é o que destrava a aprovação do cadastro e, muitas vezes, o que diferencia sua proposta das demais.
A escolha da modalidade afeta o custo total da locação, a velocidade de aprovação e o risco de cada parte. Por isso, vale conhecer todas as opções previstas em lei — e as variações que o mercado criou sobre elas — antes de assinar o contrato.
O que diz a Lei do Inquilinato
O artigo 37 da Lei 8.245/91 lista as garantias que o locador pode exigir: caução, fiança, seguro de fiança locatícia e cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento. O parágrafo único do mesmo artigo veda a exigência de mais de uma modalidade de garantia no mesmo contrato — e a lei trata essa exigência dupla como contravenção penal.
- Caução: em dinheiro (até 3 aluguéis), em bens móveis ou em imóveis.
- Fiança: um terceiro (fiador) responde pelas obrigações do inquilino.
- Seguro de fiança locatícia: apólice contratada em seguradora, que indeniza o locador em caso de inadimplência.
- Cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento: o inquilino vincula quotas de um fundo como garantia — na prática, é a base dos produtos de 'título de capitalização' e similares oferecidos pelo mercado.
Exigir caução E fiador, ou seguro-fiança E caução, no mesmo contrato é ilegal. Se isso aparecer na negociação, o inquilino pode recusar e, se já pagou, questionar a devolução do que foi exigido em duplicidade.
Fiador: a garantia tradicional
Na fiança, uma pessoa — geralmente parente ou amigo — assume a responsabilidade pelas dívidas da locação se o inquilino não pagar. É a modalidade sem custo direto para o inquilino, mas a mais difícil de conseguir: o mercado costuma exigir que o fiador tenha renda robusta (frequentemente 3 vezes o aluguel ou mais) e, em muitos casos, imóvel próprio quitado, às vezes na mesma cidade.
- Custo para o inquilino: zero em dinheiro, alto em capital social — nem todo mundo tem quem aceite fiar.
- Risco para o fiador: responde com o próprio patrimônio; a lei permite inclusive a penhora do imóvel do fiador em locação, hipótese admitida pelo STJ e pelo STF.
- Exoneração: o fiador pode se exonerar da fiança nas hipóteses legais, como na prorrogação do contrato por prazo indeterminado, ficando obrigado por 120 dias após notificar o locador (art. 40 da Lei 8.245/91).
- Para o locador: garantia forte quando o fiador tem patrimônio real, mas a cobrança pode exigir ação judicial demorada.
Se o fiador morrer, se tornar insolvente ou se exonerar, o locador pode notificar o inquilino para apresentar nova garantia em 30 dias, sob pena de despejo (art. 40, parágrafo único, da Lei 8.245/91).
Caução: depósito de até 3 aluguéis
A caução em dinheiro é o depósito antecipado de até 3 aluguéis, feito em caderneta de poupança em nome de locador e locatário, conforme o artigo 38 da Lei 8.245/91. Ao final da locação, se não houver dívidas nem danos, o valor volta ao inquilino com os rendimentos da poupança. A caução também pode ser em bens móveis ou em imóvel, modalidades menos comuns que exigem registro para valer contra terceiros.
- Custo real para o inquilino: nenhum — o dinheiro fica reservado e rende, sendo devolvido ao final se tudo estiver em ordem.
- Barreira de entrada: exige desembolso imediato de até 3 aluguéis além do primeiro mês, o que pesa no orçamento da mudança.
- Para o locador: cobertura limitada — 3 aluguéis podem ser pouco diante de uma inadimplência longa somada a danos.
- Retenção: só é legítima para dívidas comprovadas, como aluguéis em aberto e danos além do desgaste natural de uso.
Seguro-fiança: aprovação rápida, custo anual
No seguro-fiança locatício, o inquilino contrata uma apólice em seguradora e o locador é o beneficiário: se houver inadimplência, a seguradora indeniza o proprietário e depois cobra o inquilino. A aprovação depende de análise de crédito, costuma sair em poucos dias e dispensa fiador — por isso virou a garantia preferida de quem se muda de cidade ou não quer envolver terceiros.
- Custo: prêmio anual que em geral fica na faixa de 1 a 2 aluguéis por ano, variando com o perfil do inquilino e as coberturas; pode ser parcelado.
- Não é devolvido: diferentemente da caução, o valor pago é prêmio de seguro — não retorna ao fim do contrato.
- Coberturas: aluguel e encargos em atraso; conforme a apólice, também danos ao imóvel, multa contratual e pintura.
- Renovação: a apólice costuma ser anual e precisa ser renovada enquanto durar a locação.
Título de capitalização e cessão fiduciária de quotas
O título de capitalização na modalidade garantia de aluguel funciona assim: o inquilino aplica um valor (frequentemente entre 6 e 12 aluguéis, conforme a exigência do locador) em um título emitido por sociedade de capitalização e o cede em garantia da locação. Se houver dívida, o locador executa o título; se tudo correr bem, o inquilino resgata o valor ao final, conforme as condições do produto.
Já a cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento, prevista expressamente no artigo 37 da Lei 8.245/91, segue lógica parecida: o inquilino investe em um fundo habilitado e vincula as quotas ao contrato. O dinheiro continua sendo do inquilino e rende, mas fica bloqueado como garantia enquanto a locação durar.
- Vantagem: dispensa fiador e análise rigorosa, porque a garantia é o próprio dinheiro aplicado.
- Desvantagem: imobiliza um valor alto por todo o contrato — em geral mais do que os 3 aluguéis da caução.
- Atenção ao produto: leia as condições de resgate, carência e rentabilidade antes de contratar; confirme as regras vigentes com a instituição emissora.
Fiança digital e garantias por assinatura
Nos últimos anos, fintechs e seguradoras criaram produtos de 'fiança digital' ou 'garantia por assinatura mensal': o inquilino paga uma taxa mensal (comumente um percentual do aluguel) e a empresa garante o pagamento ao locador, cobrando depois o inquilino em caso de inadimplência. Juridicamente, esses produtos costumam se estruturar como seguro-fiança ou como fiança prestada por empresa.
- Aprovação: análise de crédito online, muitas vezes em minutos ou horas.
- Custo: taxa mensal recorrente enquanto durar o contrato — no acumulado, pode sair mais caro que a caução ou o seguro anual.
- Sem devolução: como no seguro-fiança, os valores pagos não retornam.
- Verifique a solidez da empresa e a aceitação pelo locador ou imobiliária antes de contar com essa modalidade.
Comparativo: custo, exigências e risco de cada garantia
A tabela abaixo resume as principais diferenças práticas entre as modalidades, do ponto de vista do inquilino e do locador. Os custos são faixas comuns de mercado e variam conforme cidade, perfil de crédito e condições do produto — confirme os valores vigentes antes de fechar.
| Garantia | Custo típico para o inquilino | Devolução ao final | Exigências | Cobertura para o locador |
|---|---|---|---|---|
| Fiador | Sem custo direto | Não se aplica | Fiador com renda alta e, muitas vezes, imóvel próprio | Ampla, mas depende de cobrança judicial |
| Caução em dinheiro | Até 3 aluguéis depositados | Sim, com rendimentos da poupança | Desembolso imediato | Limitada ao valor depositado |
| Seguro-fiança | Em geral 1 a 2 aluguéis por ano | Não | Análise de crédito na seguradora | Ampla, conforme coberturas da apólice |
| Título de capitalização | Aplicação de vários aluguéis (comum 6 a 12) | Sim, conforme condições do título | Capital disponível para aplicar | Limitada ao valor do título |
| Cessão fiduciária de quotas | Aplicação em fundo habilitado | Sim, quotas continuam do inquilino | Capital disponível para investir | Limitada ao valor das quotas |
| Fiança digital | Taxa mensal recorrente | Não | Análise de crédito online | Conforme contrato com a garantidora |
Como escolher a garantia conforme o seu perfil
Não existe garantia universalmente melhor: existe a mais adequada a cada situação. O inquilino deve comparar o custo total ao longo do contrato e a disponibilidade de capital; o locador deve pesar a solidez da cobertura contra a agilidade para fechar o negócio.
- Tem reserva financeira e quer o menor custo total: caução em dinheiro — o valor volta corrigido ao final.
- Não tem fiador nem reserva: seguro-fiança ou fiança digital, comparando o custo anual entre seguradoras.
- Tem capital sobrando e quer que ele renda: cessão fiduciária de quotas ou título de capitalização.
- Tem um familiar com patrimônio disposto a ajudar: fiador, a opção sem desembolso.
- É locador e quer agilidade sem abrir mão de cobertura: aceitar seguro-fiança e fiança digital amplia o público interessado no imóvel.
Inquilino: antes de aceitar a garantia sugerida pela imobiliária, faça a conta do custo total no período do contrato (30 meses, por exemplo). Um seguro de 1,5 aluguel por ano custa quase 4 aluguéis em 30 meses — mais do que a caução, que ainda seria devolvida.
É possível alugar sem nenhuma garantia?
Sim. A garantia não é obrigatória — é uma faculdade do locador. Quando o contrato não tem garantia, a própria Lei do Inquilinato compensa o risco: o artigo 42 autoriza o locador a exigir o pagamento do aluguel antecipadamente, até o sexto dia útil do mês vincendo. Além disso, a locação sem garantia permite liminar de despejo mais rápida em caso de inadimplência (art. 59, § 1º, IX, da Lei 8.245/91).
- Para o inquilino: elimina custos e burocracia de garantia, mas exige pagamento adiantado do aluguel.
- Para o locador: risco maior de inadimplência, parcialmente compensado pelo aluguel antecipado e pelo despejo com liminar.
- Na prática: mais comum em locações diretas com o proprietário, contratos curtos e aluguel por temporada.
Perguntas frequentes
Quais são as garantias locatícias previstas em lei?
O artigo 37 da Lei 8.245/91 prevê quatro: caução (em dinheiro, bens móveis ou imóveis), fiança (fiador), seguro de fiança locatícia e cessão fiduciária de quotas de fundo de investimento. O título de capitalização e a fiança digital são produtos de mercado estruturados sobre essas modalidades.
O locador pode exigir fiador e caução ao mesmo tempo?
Não. A Lei do Inquilinato veda a exigência de mais de uma modalidade de garantia no mesmo contrato de locação, e essa exigência dupla é tratada como contravenção penal. O inquilino pode recusar e questionar valores pagos em duplicidade.
Qual é a garantia mais barata para o inquilino?
Em custo total, a caução costuma ser a mais barata: o valor de até 3 aluguéis fica depositado em poupança e volta corrigido ao final, se não houver dívidas. O fiador não tem custo em dinheiro, mas depende de encontrar alguém disposto a assumir o risco.
Qual garantia é melhor para o locador?
Depende da prioridade. O seguro-fiança oferece cobertura ampla e cobrança simples junto à seguradora. O fiador com patrimônio sólido dá garantia forte, mas a cobrança pode exigir processo judicial. A caução é simples, porém limitada a 3 aluguéis.
Quanto custa o seguro-fiança por ano?
O prêmio varia com o perfil de crédito do inquilino, o valor do aluguel e as coberturas contratadas, mas em geral fica na faixa de 1 a 2 aluguéis por ano, com possibilidade de parcelamento. Compare cotações em mais de uma seguradora antes de fechar.
A caução é devolvida ao final do contrato?
Sim. A caução em dinheiro deve ser depositada em poupança e, ao fim da locação, é devolvida ao inquilino com os rendimentos, descontadas apenas dívidas comprovadas, como aluguéis em aberto ou danos que ultrapassem o desgaste natural do imóvel.
O seguro-fiança é devolvido se eu não usar?
Não. O valor pago é prêmio de seguro, como em um seguro de carro: remunera a cobertura do risco durante a vigência e não retorna ao inquilino, mesmo que não haja nenhuma inadimplência no período.
O que acontece se o fiador morrer ou desistir durante o contrato?
O locador pode notificar o inquilino para apresentar nova garantia em 30 dias, conforme o artigo 40 da Lei 8.245/91. Se o inquilino não substituir a garantia, o locador pode pedir o despejo. No caso de exoneração, o fiador segue responsável por 120 dias após a notificação.
Fiador precisa ter imóvel próprio?
A lei não exige, mas o mercado costuma pedir imóvel quitado e renda de cerca de 3 vezes o aluguel, porque isso facilita a cobrança em caso de inadimplência. As exigências variam entre imobiliárias e proprietários — algumas aceitam fiador só com renda comprovada.
O que é fiança digital?
É um produto de fintechs e seguradoras em que o inquilino paga uma taxa mensal e a empresa garante o aluguel ao locador, cobrando o inquilino depois em caso de inadimplência. Aprova rápido e dispensa fiador, mas o custo acumulado pode superar o de outras garantias e não há devolução.
Título de capitalização como garantia vale a pena?
Pode valer para quem tem capital disponível e não quer fiador: o valor aplicado é resgatado ao final, conforme as condições do título. O ponto negativo é imobilizar vários aluguéis durante todo o contrato. Leia as regras de resgate e carência antes de contratar.
É possível trocar de garantia no meio do contrato?
Sim, desde que locador e inquilino concordem. A troca deve ser formalizada por aditivo contratual, registrando a nova modalidade e a liberação da anterior — por exemplo, devolução da caução mediante contratação de seguro-fiança.
Alugar sem garantia é permitido?
Sim. A garantia é opcional. Nesse caso, a lei permite ao locador cobrar o aluguel antecipadamente, até o sexto dia útil do mês em curso, e a ação de despejo por falta de pagamento pode ter liminar mais rápida, o que equilibra o risco do proprietário.
Conteúdo informativo e educacional; não substitui a orientação de advogados, contadores ou corretores para o seu caso concreto.